Médicos estão despreparados para o diagnóstico e tratamento da dengue

04/04/2013 09:52
 

A morte de um adolescente de 16 anos com suspeita de dengue hemorrágica chamou a atenção mais uma vez para este tipo agressivo da doença. No caso, que ocorreu nesta segunda-feira (1º/4) no Hospital Regional de Santo Antônio de Jesus, ficou claro a dificuldade que os médicos tiveram em lidar com o paciente, devido à dificuldade de diagnóstico.

Caso seja confirmada a suspeita, o que ocorrerá, através de exames laboratoriais, dentro de um mês, o jovem pode ter sido vítima também de outro problema da saúde no estado: a falta de capacitação das equipes médicas para lidar com a dengue.

“A morte por dengue é evitável e os óbitos só denunciam que há falhas no sistema de saúde. A falta de capacitação de quem presta atenção aos pacientes é uma delas, tão grave quanto às falhas de gestão de quem está à frente do sistema nos municípios”, declarou Jesuína Castro, coordenadora da Vigilância Epidemiológica da Secretaria da Saúde do Estado da Bahia (Sesab).

Segundo a médica, a dificuldade de diagnóstico da dengue hemorrágica é uma realidade, que pode ser afrontada por equipes capacitadas no atendimento aos doentes. “O fato é que dentro do sistema de saúde na Bahia existem muitos profissionais sem a capacitação para lidar com a dengue de forma adequada, o que é um problema que a Sesab vem tentando combater há muito tempo, mas esbarramos em algumas questões que dizem respeito às gestões municipais”, disse.

Jesuína Castro ressalta que o paciente de dengue tem a particularidade de que mesmo correndo o risco de vida, à primeira vista, se trata apenas de uma pessoa que está passando mal. “É uma doença que dura uns sete dias em média, o atendimento influenciará de maneira decisiva na cura, em complicações e até na morte do paciente”, acrescenta, deixando claro que não está se referindo ao caso de Santo Antônio de Jesus.

Gestões municipais dificultam capacitação

Sobre a questão das gestões municipais, a médica aponta a dificuldade que a secretaria tem encontrado no processo de capacitação dos profissionais de saúde nas cidades do interior. “São planejados os cursos, são mobilizadas pessoas e gasto muito dinheiro público nesses processos, mas na hora das aulas, os profissionais não são liberados pelas prefeituras, através das secretarias de saúde, para participar. Isso tem acontecido repetidas vezes”, conta.

Ela explica que muitas vezes, os profissionais não são liberados por significar gastos para as prefeituras, já que os postos vagos, temporariamente, têm de ser preenchidos por outros profissionais. “Mas estamos todos gastando dinheiro e energia no combate à doença, se não houver uma participação conjunta, não podemos avançar “, acrescenta.

Outro exemplo da ausência de participação das gestões municipais aconteceu em 2010. Naquele ano, depois de contatar as prefeituras das regiões mais atingidas pela dengue, a Sesab investiu em um concurso para Agentes de Combate a Endemias.

As prefeituras de 76 municípios assinaram termos de compromisso com a secretaria para contratar os agentes que já seriam admitidos com a capacitação necessária. “Até agora menos de 10% desses municípios cumpriram com o compromisso e há informações que alguns desses municípios já demitiram os agentes contratados”, informa.

Como prova dessa deficiência citada pela médica, ela revela que a letalidade que seria aceitável para a dengue no estado ficaria abaixo de 2% dos casos graves. Na Bahia esta taxa está acima de 10%.

Outro dado que corrobora a opinião da médica, que trabalha na luta contra a dengue desde 1995, vem de uma pesquisa realizada pela Vigilância Sanitária em parceria com a Universidade do Estado da Bahia (Uneb). Nela ficou demonstrado que, na maioria dos casos, as vítimas do tipo mais grave de dengue passam por três atendimentos médicos, em média, antes de ser diagnosticado.

Mesmo não confirmado ainda, o caso do adolescente de Santo Antônio de Jesus tem as características da maioria dos óbitos da doença.

Sintomas semelhantes

Os sintomas da dengue hemorrágica são os mesmos da dengue comum. A diferença ocorre quando acaba a febre e começam a surgir os sinais de alerta. Dores abdominais fortes e contínuas. Vômitos persistentes, pele pálida, fria e úmida; sangramento pelo nariz, boca e gengivas; manchas vermelhas na pele; sonolência, agitação e confusão mental; sede excessiva e boca seca; pulso rápido e fraco; dificuldade respiratória; perda de consciência.

Na dengue hemorrágica o quadro clínico se agrava rapidamente, apresentando sinais de insuficiência circulatória e choque, podendo levar a pessoa à morte em até 24 horas. De acordo com estatísticas do Ministério da Saúde, cerca de 5% das pessoas com dengue hemorrágica morrem. O objetivo do ministério é que esse número seja reduzido a menos de 1%.

O último boletim epidemiológico da Sesab aponta que no ano de 2013 ocorreram cinco óbitos devido à dengue hemorrágica entre os 31 casos confirmados em 19 municípios. No ano de 2012, foram confirmados 215 casos em 72 municípios, dos quais 29 infectados foram a óbito. A secretaria informa ainda que o paciente que já teve a doença na sua forma menos grave tem dez vezes mais chance de desenvolver a forma hemorrágica.

Este ano, até o início do mês curso, foram notificados 29.363 casos de dengue, na sua forma menos grave, na Bahia, correspondendo a um aumento de 10,45% em relação ao mesmo período de 2012, quando foram notificados 26.584 casos. A Sesab esclarece, no entanto, que deve-se considerar um atraso na atualização das informações pelos municípios.

Até o momento, 369 (88,5%) municípios notificaram a doença através dos sistemas de informação da vigilância epidemiológica.

http://www.tribunadabahia.com.br/2013/04/04/medicos-estao-despreparados-para-diagnostico-tratamento-da-dengue